10.10.17

a visita.

chegou.
vem, vez em sempre, sem avisar
desassossegar o meu marasmo
descompassar a respiração
desmontar minhas caixas
desconfigurar o meu sono
despedir minha paz
desmedir minhas horas
desmentir meus nortes
despolir meus versos

vazamento de água salgada
ar rarefeito que bate por dentro
um escuro inquieto, 
um desejo não desperto.
chegou.

11.11.16

pensamentos de travesseiro.

quem sabe o que é o tempo?
a gente diz que com ele tudo se ajeita, se resolve, acomoda, ou estrepa de vez - e isso eu já vi bastante. mas o que é essa coisa, ninguém se atreve a dizer, não.

se é quantidade de minutos dentro das horas dos dias ou quanto se leva pra esquecer alguém. quantas horas são tempo demais, quanto dias são tempo de menos? e, mais importante, se minha ausência nesses meses tirou meu tempo do seu tempo.

toda a gente vive presa nesse círculo com seus tracinhos, contando em minutos o que quer que logo acabe, segurando as horas daquilo que não quer que acabe, não. medindo em compassos iguais os melhores e piores instantes dessa vida que vai escapando de minuto a minuto e obriga a gente a contar cada um.

às vezes a gente acha que as coisas são rápidas demais ou lentas sem razão, mas, sabe, as coisas são. elas apenas são. cada uma tem seu ritmo e acontece só nele porque se fosse outro compasso, era outra música. se fosse de outro jeito, meu bem, era outra coisa.

eu sei. enquanto a gente fala, o marcador se move embaixo do vidro, em cima do pulso, e temos muito a fazer. me diz, então, só mais uma coisa. quando a gente fala: quanto tempo resta? quanto tempo leva? quanto tempo faz? é mais sobre as batidas de um ponteiro ou de um coração?




4.11.16

sua ausência traz a chuva.

sua ausência traz a chuva
desde que nos desencontramos
naquele dia, naquela esquina
em que nos desconhecemos

sua ausência traz a chuva
quando a toalha não está separada
o sabonete no lugar errado
e a bancada da cozinha está vazia

sua ausência traz a chuva
nas séries que não veremos
nas discussões que não teremos
nos filmes não mais compartilhados

sua ausência traz a chuva
mas eu amo tempestades.






12.10.16

soneto da chuva.

quando sentei pra conversar com a chuva
ela me mostrou um mundo enorme
cada pingo se prendeu ao meu corpo
feito vaidade do céu desforme

tenho esse dom dos olhos dos outros
que me deu um coração encravado
quebro nas primeiras frases
aquele futuro sem ter começado

é que esse silêncio eu conheço
é onde o medo faz seu lar
o desvio dos olhos vem cedo
numa luta para não começar

em cada não-dito fica claro
que um ontem existiu pra nós dois
mas veio sem aviso o encaixe
com toda essa vontade do depois

e agora que não te sei ainda
queria poder dizer essas coisas
que talvez te espere pra falar assim

mesmo agora que sou singular,
mesmo agora que nos dói entrar,
você pode repousar seu amor em mim




13.5.16

pra agora ou pra viagem.

.
no descuido dos planos mal feitos,
na coincidência de uma esquina 
- daquele bar, leblon -
chegou o moço do olho de flor

ele me olhou como sempre 
eu retribuí com a casca dos anos
nos sorrimos, reconhecemos, 
nos beijamos, compassamos

as mãos, as unhas, as línguas 
o cheiro, o suor, o sono
o igual, o diferente, o mesmo
os avós, os medos, os pés 

andamos três vezes juntos 
sob o céu descoberto da noite 
quase sempre bem acompanhados
o vinho, o mar, a música... e o passado

no desaviso de uma dúvida 
no desvio de uma resposta
- naquela noite sem som -
partiu o moço do olho de flor

ele me olhou como nunca
me reconheceu por dentro 
nos sorrimos, nos acovardamos
nos despedimos, evitamos 

os olhos, os abraços, os sorrisos
o começo, o meio, o fim
os sonhos dentro do sono
e todas as noites ao som do led zeppelin