17.11.15

efeméride.


    amor é pena flutuando no ar. é coisa bonita de se observar e desaconselhável tocar com os dedos. você pode abrir a mão e acompanhar seu movimento de descida vagarosa, com a palma estatelada para cima, esperando que ele caia ali. mas basta uma respiração descompassada pra que ele novamente vá embora.
    amor é óleo de rícino. bonito de ver se despejar à distância. difícil engolir pela garganta, mas te ensinaram que faz bem à saúde e por isso você toma mesmo quando achava melhor deixar pra lá.
    amor é coisa que não se põe a mão. papel de arroz, suor no lado de fora do copo, dente-de-leão. é um punhado de purpurina em cima da mesa, ar rarefeito e tudo que é mais fácil olhar de longe.
   ontem mesmo tinha um amor imenso sentado nesse banco ao meu lado. estado líquido pleno para preencher cada fissura de dúvida que restava. mas aí evaporou.


9.10.15

quando não importa que não importe paris.

Olhei de longe e te achei diferente de tudo que já tinha conhecido. Diferente de tudo que toquei com as pontas dos dedos e de mim. Toda a curiosidade do novo pulsando em viagens diárias através daquela baía. Minhas sempre presentes arestas tentaram assustar os planos, mas você poliu cada quina do meu rosto com um beijo e elas foram embora.
Você me olhou e foi tudo mais ou menos igual. Foi engraçado segurar nas mãos aquele bichinho arisco tantos meses. Cantou baixinho pra acalmar os medos e dedilhou no violão uma rotina doce. Só que aí você olhou de novo. Com o que falta, o que sobra, o que esquenta em maior frequência, o que sou e sempre fui. E me achou diferente de tudo que já tinha conhecido. Diferente de tudo que tocou com as pontas dos dedos. E sentiu neles estes cantos que me confortam e agora te afastam. As arestas tentaram assustar os planos e você falou dos nossos filhos. E a palavra quando sai da boca ganha corpo e forma. Aí o assustado era você. Ali estava a face que não via, a alma feita de covardia. Me prendeu os pés e partiu sem a delicadeza do adeus.


7.10.15

o horário do despertador.

O dia de mudar o horário do despertador dá sempre um aperto no fundo do coração. Mudo de oito para sete e sei que a noite não vai ter a sua respiração, nem a manhã o seu cheiro. Sei que não tem beijo no portão ou luz pra eu esquecer acesa. O dia de mudar o horário do despertador chega muito rápido e demora pra passar. Serve pra lembrar que o tempo ganhou toda uma nova elasticidade desde que passei a te encontrar. 

6.10.15

aqueles casais.

Olham pro horizonte, para a parede, fixam-se em cada vinco da mesa, sentem os detalhes dos rejuntes do piso. E seguram as mãos. As próprias, não um do outro. Passam horas em silêncio por minuto. Se encontram por fora da mesa. Com os muitos que são os outros. E falam. Dentro da própria garganta, um monólogo contido e inaudível. Tudo o que se diriam, se houvesse coragem, paixão, vontade, tesão, amor, ódio ou qualquer sentimento que não a inércia. Enquanto bate o relógio que não temos, enquanto fica o carro na rua, enquanto faltam móveis na casa. Enquanto houver por enquanto.


5.10.15

undertow.


Ele vem.
Sinto na pele seus sinais. Entrando devagar pelos poros e enchendo o peito ao avesso. O medo. Hora de se instalar na esquina, prazo padrão.
Seis meses ou duzentos e quarenta e poucos dias, depende de quando a gente começa a contar. Pode ser do dia que você anunciou que eu era sua ou do dia em que já sabíamos quem éramos um do outro. Não importa a contagem, o tempo é esse agora em que ouço algumas frases repetidas no eco de todos os meus anos. Desaprendi a respirar desde o domingo em que não batemos de carro. Te olho com olho de bicho assustado porque espero o tiro, o passo, a deixa. É agora ou espera mais um pouco?
É o mar se recolhendo devagar da areia. Vai o peito esvaziando a falta de ar e é tanto amanhã que já me começa a faltar. Toda aquela coleção de lembranças do futuro que você desenhou na minha frente. Aquelas coisas que eu nunca quis e que tanto já me fazem falta. 

Recuo porque não sei o tamanho da onda.