28.2.14

amanhã chega a chuva.

acordei de coração pequeninho
é que ontem ele se encolheu
e tentou sumir de novo
tá aqui amuado, suspirando,
com medo de água da chuva.

passei manhã conversando com ele
disse assim: calma, meu amor
já passou isso tudo, ficou só
uma tatuagem pra lembrar
o resto já foi, fica tranquilo

resolvi cantar pra ele se acalmar
qualquer música, bem baixinho
verso a verso com um gosto salgado
que vai me pesando também

mas shhh, shhhh, vai ficar tudo bem.

amanhã chega a chuva.

24.2.14

sobre o medo que você acha que tenho de mar.

filha de netuno,
feita de água, 
benzida de sal,
olhos vertem mágoa
pelos pés, me abandona
todo e qualquer mal

sobrevivo na areia,
me obrigam a respirar,
mas com meus grãos sei
eu sou o mar.

21.7.13

a coisa mais importante dos dias sem semanas.

Que bom que a sua vida continua como se nada fosse do que já não somos. A coisa mais importante dos dias sem semanas foi isso. O seu sossego, a resignação - que é nome bonito para aquilo que não te importa (mais). Foi o vazio na resposta das últimas letras que trocamos. E dos sons também. O que você ama em mim? Pois nada, ainda bem. O que você vai fazer sobre as lacunas? Pois nada, ainda bem. Que o nada importa do que é meu é o que sempre houve, então me empurra um pouco mais adiante.

Agora que já tenho um pé e meio no tarde demais, espero que você não tente voltar. É tarde, é tarde para fingir mudar. É uma pena passar do ponto por encher as horas com pequenas felicidades que não são soluções.

No mais é isso. Sonhe grande, mas não esqueça de realizar.

When I was just a child in school
I asked my teacher what should I do
Should I paint pictures, should I sing songs
Here was her wise reply

Que sera sera 
Whatever will be, will be
The futures not ours to see
Que sera sera 
What will be, will be




12.7.13

meu melhor amigo é o chuveiro.

[não há mais fotos no quadro,
e eu tento preencher o vazio
com tudo o que havia de errado]

meu melhor amigo é o chuveiro,
que me engole lágrimas em azulejos
porque os outros sempre perguntam
'como vai?' quando não vou mais
ando por aí, demoro-me nas esquinas
entro e saio de salas, durmo e acordo
como, bebo, respiro, só não vou mais.
aonde quer que eu vá, não vou mais.

meus ouvidos zombam diariamente
dos desencontros de pensamentos
pedem músicas proibidas e riem:
sabem que todas elas o são.
tropeço por aí em pedrinhas no chão
e não posso mais dizer 'é meu'.
o meu e o seu, isso não é de hoje,
faz tempo que 'nosso' não é.

disso, eu sei.
e assim costuro a coragem.



23.6.13

quase sempre nunca.

quando os cachorros latem,
quando a porta bate,
quando ouço vozes na casa,
quando cochilo e acordo assustada,
quando o chão estala,
quando o telefone reclama,
quando o coração acelera sozinho,

quando acho que é você entrando pela porta
e dizendo 'vem comigo que quase tudo vai mudar'.