quem sabe um dia poderemos nos falar sem essa bomba relógio de mágoas
quem sabe um dia vou olhar pra trás e concordar que fomos felizes, como você disse, no plural
quem sabe um dia eu supere as muitas vezes que você disse que eu não era suficiente
quem sabe um dia eu esqueça os momentos em que me arrastei no chão para não ofender seu ego
quem sabe um dia a sensação de estar amarrada sem poder respirar seja uma lembrança distante
quem sabe um dia não me machuquem as vezes em que você me ameaçou com abandono e violência
quem sabe um dia eu acredite que sua meditação possa te ajudar a não dar um soco na cara de alguém
quem sabe um dia eu lembre o cara que você mostrou ser no início e possa suportar sua presença
quem sabe um dia eu esqueça as mentiras que descobri no final
quem sabe um dia eu volte a me importar com como você se sente
quem sabe um dia.
ou nunca mais.
5.7.19
10.10.17
a visita.
chegou.
vem, vez em sempre, sem avisar
desassossegar o meu marasmo
descompassar a respiração
desmontar minhas caixas
desconfigurar o meu sono
despedir minha paz
desmedir minhas horas
desmentir meus nortes
despolir meus versos
vazamento de água salgada
vem, vez em sempre, sem avisar
desassossegar o meu marasmo
descompassar a respiração
desmontar minhas caixas
desconfigurar o meu sono
despedir minha paz
desmedir minhas horas
desmentir meus nortes
despolir meus versos
vazamento de água salgada
ar rarefeito que bate por dentro
um escuro inquieto,
um desejo não desperto.
chegou.
11.11.16
pensamentos de travesseiro.
quem sabe o que é o tempo?
a gente diz que com ele tudo se ajeita, se resolve, acomoda, ou estrepa de vez - e isso eu já vi bastante. mas o que é essa coisa, ninguém se atreve a dizer, não.
se é quantidade de minutos dentro das horas dos dias ou quanto se leva pra esquecer alguém. quantas horas são tempo demais, quanto dias são tempo de menos? e, mais importante, se minha ausência nesses meses tirou meu tempo do seu tempo.
toda a gente vive presa nesse círculo com seus tracinhos, contando em minutos o que quer que logo acabe, segurando as horas daquilo que não quer que acabe, não. medindo em compassos iguais os melhores e piores instantes dessa vida que vai escapando de minuto a minuto e obriga a gente a contar cada um.
às vezes a gente acha que as coisas são rápidas demais ou lentas sem razão, mas, sabe, as coisas são. elas apenas são. cada uma tem seu ritmo e acontece só nele porque se fosse outro compasso, era outra música. se fosse de outro jeito, meu bem, era outra coisa.
eu sei. enquanto a gente fala, o marcador se move embaixo do vidro, em cima do pulso, e temos muito a fazer. me diz, então, só mais uma coisa. quando a gente fala: quanto tempo resta? quanto tempo leva? quanto tempo faz? é mais sobre as batidas de um ponteiro ou de um coração?
a gente diz que com ele tudo se ajeita, se resolve, acomoda, ou estrepa de vez - e isso eu já vi bastante. mas o que é essa coisa, ninguém se atreve a dizer, não.
se é quantidade de minutos dentro das horas dos dias ou quanto se leva pra esquecer alguém. quantas horas são tempo demais, quanto dias são tempo de menos? e, mais importante, se minha ausência nesses meses tirou meu tempo do seu tempo.
toda a gente vive presa nesse círculo com seus tracinhos, contando em minutos o que quer que logo acabe, segurando as horas daquilo que não quer que acabe, não. medindo em compassos iguais os melhores e piores instantes dessa vida que vai escapando de minuto a minuto e obriga a gente a contar cada um.
às vezes a gente acha que as coisas são rápidas demais ou lentas sem razão, mas, sabe, as coisas são. elas apenas são. cada uma tem seu ritmo e acontece só nele porque se fosse outro compasso, era outra música. se fosse de outro jeito, meu bem, era outra coisa.
eu sei. enquanto a gente fala, o marcador se move embaixo do vidro, em cima do pulso, e temos muito a fazer. me diz, então, só mais uma coisa. quando a gente fala: quanto tempo resta? quanto tempo leva? quanto tempo faz? é mais sobre as batidas de um ponteiro ou de um coração?
4.11.16
sua ausência traz a chuva.
sua ausência traz a chuva
desde que nos desencontramos
naquele dia, naquela esquina
em que nos desconhecemos
sua ausência traz a chuva
quando a toalha não está separada
o sabonete no lugar errado
e a bancada da cozinha está vazia
sua ausência traz a chuva
nas séries que não veremos
nas discussões que não teremos
nos filmes não mais compartilhados
sua ausência traz a chuva
mas eu amo tempestades.
desde que nos desencontramos
naquele dia, naquela esquina
em que nos desconhecemos
sua ausência traz a chuva
quando a toalha não está separada
o sabonete no lugar errado
e a bancada da cozinha está vazia
sua ausência traz a chuva
nas séries que não veremos
nas discussões que não teremos
nos filmes não mais compartilhados
sua ausência traz a chuva
mas eu amo tempestades.
12.10.16
soneto da chuva.
quando sentei pra conversar com a chuva
ela me mostrou um mundo enorme
cada pingo se prendeu ao meu corpo
feito vaidade do céu desforme
tenho esse dom dos olhos dos outros
que me deu um coração encravado
quebro nas primeiras frases
aquele futuro sem ter começado
é que esse silêncio eu conheço
é onde o medo faz seu lar
o desvio dos olhos vem cedo
numa luta para não começar
em cada não-dito fica claro
que um ontem existiu pra nós dois
mas veio sem aviso o encaixe
com toda essa vontade do depois
e agora que não te sei ainda
queria poder dizer essas coisas
que talvez te espere pra falar assim
mesmo agora que sou singular,
mesmo agora que nos dói entrar,
você pode repousar seu amor em mim
ela me mostrou um mundo enorme
cada pingo se prendeu ao meu corpo
feito vaidade do céu desforme
tenho esse dom dos olhos dos outros
que me deu um coração encravado
quebro nas primeiras frases
aquele futuro sem ter começado
é que esse silêncio eu conheço
é onde o medo faz seu lar
o desvio dos olhos vem cedo
numa luta para não começar
em cada não-dito fica claro
que um ontem existiu pra nós dois
mas veio sem aviso o encaixe
com toda essa vontade do depois
e agora que não te sei ainda
queria poder dizer essas coisas
que talvez te espere pra falar assim
mesmo agora que sou singular,
mesmo agora que nos dói entrar,
você pode repousar seu amor em mim
13.5.16
pra agora ou pra viagem.
.
no descuido dos planos mal feitos,
na coincidência de uma esquina
- daquele bar, leblon -
chegou o moço do olho de flor
ele me olhou como sempre
eu retribuí com a casca dos anos
nos sorrimos, reconhecemos,
nos beijamos, compassamos
as mãos, as unhas, as línguas
o cheiro, o suor, o sono
o igual, o diferente, o mesmo
os avós, os medos, os pés
andamos três vezes juntos
sob o céu descoberto da noite
quase sempre bem acompanhados
o vinho, o mar, a música... e o passado
no desaviso de uma dúvida
no desvio de uma resposta
- naquela noite sem som -
partiu o moço do olho de flor
ele me olhou como nunca
me reconheceu por dentro
nos sorrimos, nos acovardamos
nos despedimos, evitamos
os olhos, os abraços, os sorrisos
o começo, o meio, o fim
os sonhos dentro do sono
e todas as noites ao som do led zeppelin
28.4.16
Da falta.
Não sinto sua falta. Não lembro com saudade do tempo que já passou. Volta e meia a nostalgia vem tomar café da manhã em minha nova casa, mas ela sabe que é visita. Não é sobre as madrugadas que conversamos. Nenhuma parte de mim quer voltar para aquele tempo e nem saber como poderia ter sido. Mas te sinto na minha falta.
Te sinto na falta de olhos que me vejam como os seus. Na falta diária que seu peito sentia do meu calor. Na adoração de cada flagrante de toda vez que eu te procurava de longe. Sem ensaio, sem pedido, encontrava seus olhos cravados nos meus com um sorriso que espantava qualquer dúvida. Um orgulho que estava ali por nada, por eu ser, estar e existir. Você me observava de perto, de longe, dormindo, escovando os dentes, passando mal depois de alguma orgia etílica, trabalhando, pregando móveis, pintando quadros, tirando fotos, julgando letras, escolhendo filmes, conversando, partindo, voltando, ficando, respirando. E fazia isso sem descanso, como se eu fosse um filme eternamente bom, todo feito de cenas imperdíveis.
Aprendi a me entender assim, inundada de amor, nessa neblina do exagero. Flutuei alguns anos e talvez isso tenha entorpecido a derradeira partida. Saí de nós inebriada do que você sentia de mim. Agora é desembaçar o espelho. Hoje tento não me afogar na falta do constante transbordamento. No vazio ou rarefeito. Na falta que a falta faz.
Te sinto na falta de olhos que me vejam como os seus. Na falta diária que seu peito sentia do meu calor. Na adoração de cada flagrante de toda vez que eu te procurava de longe. Sem ensaio, sem pedido, encontrava seus olhos cravados nos meus com um sorriso que espantava qualquer dúvida. Um orgulho que estava ali por nada, por eu ser, estar e existir. Você me observava de perto, de longe, dormindo, escovando os dentes, passando mal depois de alguma orgia etílica, trabalhando, pregando móveis, pintando quadros, tirando fotos, julgando letras, escolhendo filmes, conversando, partindo, voltando, ficando, respirando. E fazia isso sem descanso, como se eu fosse um filme eternamente bom, todo feito de cenas imperdíveis.
Aprendi a me entender assim, inundada de amor, nessa neblina do exagero. Flutuei alguns anos e talvez isso tenha entorpecido a derradeira partida. Saí de nós inebriada do que você sentia de mim. Agora é desembaçar o espelho. Hoje tento não me afogar na falta do constante transbordamento. No vazio ou rarefeito. Na falta que a falta faz.
(+and love me for my mind
'cause I'm a dangerous heart)
24.4.16
Toda a água.
Toda água que bate na pele muda o que se é por dentro. O suor que escorre no carnaval, a saliva de 31 de dezembro, as lágrimas de janeiro. As ondas batem nas coxas quando não dá mais tempo de voltar à areia. O único caminho é o mergulho. De corpo todo, de cabeça, de olhos fechados, respiração suspensa. Mergulhei num rio rasinho, com pedra lisa no fundo, e ele me abraçou inteira. Mantive a cabeça embaixo d'água porque quis e ele avisou que era pr'a gente seguir junto. A correnteza deslizava no meu corpo que deslizava na correnteza e não se sabia mais o que era líquido ou carne porque o rio e eu temos alma transparente. Assim fomos de cidade em cidade, cama em cama e uma escada ocasional. Foi quando eu pensei que aquele rio era toda a minha vida. Ainda, a cada braçada tudo parecia mais fundo. Quando não via mais suas pedrinhas coloridas a corrente apertou meus braços e machucou a pele. Nadei com arranhões pequenos no rosto e no peito. Já não conhecia o curso daquele rio. Antes o fluxo suave me levava para um lado e para o outro sem precisar avisar. Não sei mais dizer quando é para a direita ou esquerda. Essa era a altura da queda. Senti desavisada o sal estalar na língua e o fogo de água salgada me tomar por dentro. O rio desembocou no mar. Não tem problema, sou feita de água. O mar também é meu, mas não só. Ele puxa e afasta ao mesmo tempo e eu aviso que fico - enquanto houver fôlego. Fico enquanto sentir gosto de rio. Hoje eu fico e deixo a janela do mar aberta. Todo mar desemboca num rio.
1.12.15
boa noite para você também.
e que assim seja:
boa noite, amor.
saiba que não vou dormir agora.
17.11.15
efeméride.
amor é pena flutuando no ar. é coisa bonita de se observar e desaconselhável tocar com os dedos. você pode abrir a mão e acompanhar seu movimento de descida vagarosa, com a palma estatelada para cima, esperando que ele caia ali. mas basta uma respiração descompassada pra que ele novamente vá embora.
amor é óleo de rícino. bonito de ver se despejar à distância. difícil engolir pela garganta, mas te ensinaram que faz bem à saúde e por isso você toma mesmo quando achava melhor deixar pra lá.
amor é coisa que não se põe a mão. papel de arroz, suor no lado de fora do copo, dente-de-leão. é um punhado de purpurina em cima da mesa, ar rarefeito e tudo que é mais fácil olhar de longe.
ontem mesmo tinha um amor imenso sentado nesse banco ao meu lado. estado líquido pleno para preencher cada fissura de dúvida que restava. mas aí evaporou.
9.10.15
quando não importa que não importe paris.
Olhei de longe e te achei diferente de tudo que já tinha conhecido. Diferente de tudo que toquei com as pontas dos dedos e de mim. Toda a curiosidade do novo pulsando em viagens diárias através daquela baía. Minhas sempre presentes arestas tentaram assustar os planos, mas você poliu cada quina do meu rosto com um beijo e elas foram embora.
Você me olhou e foi tudo mais ou menos igual. Foi engraçado segurar nas mãos aquele bichinho arisco tantos meses. Cantou baixinho pra acalmar os medos e dedilhou no violão uma rotina doce. Só que aí você olhou de novo. Com o que falta, o que sobra, o que esquenta em maior frequência, o que sou e sempre fui. E me achou diferente de tudo que já tinha conhecido. Diferente de tudo que tocou com as pontas dos dedos. E sentiu neles estes cantos que me confortam e agora te afastam. As arestas tentaram assustar os planos e você falou dos nossos filhos. E a palavra quando sai da boca ganha corpo e forma. Aí o assustado era você. Ali estava a face que não via, a alma feita de covardia. Me prendeu os pés e partiu sem a delicadeza do adeus.
Você me olhou e foi tudo mais ou menos igual. Foi engraçado segurar nas mãos aquele bichinho arisco tantos meses. Cantou baixinho pra acalmar os medos e dedilhou no violão uma rotina doce. Só que aí você olhou de novo. Com o que falta, o que sobra, o que esquenta em maior frequência, o que sou e sempre fui. E me achou diferente de tudo que já tinha conhecido. Diferente de tudo que tocou com as pontas dos dedos. E sentiu neles estes cantos que me confortam e agora te afastam. As arestas tentaram assustar os planos e você falou dos nossos filhos. E a palavra quando sai da boca ganha corpo e forma. Aí o assustado era você. Ali estava a face que não via, a alma feita de covardia. Me prendeu os pés e partiu sem a delicadeza do adeus.
7.10.15
o horário do despertador.
O dia de mudar o horário do despertador dá sempre um aperto no fundo do
coração. Mudo de oito para sete e sei que a noite não vai ter a sua respiração,
nem a manhã o seu cheiro. Sei que não tem beijo no portão ou luz pra eu
esquecer acesa. O dia de mudar o horário do despertador chega muito rápido e
demora pra passar. Serve pra lembrar que o tempo ganhou toda uma nova
elasticidade desde que passei a te encontrar.
6.10.15
aqueles casais.
5.10.15
undertow.
Ele vem.
Sinto na pele seus sinais. Entrando devagar pelos poros e enchendo o peito ao avesso. O medo. Hora de se instalar na esquina, prazo padrão.
Seis meses ou duzentos e quarenta e poucos dias, depende de quando a gente começa a contar. Pode ser do dia que você anunciou que eu era sua ou do dia em que já sabíamos quem éramos um do outro. Não importa a contagem, o tempo é esse agora em que ouço algumas frases repetidas no eco de todos os meus anos. Desaprendi a respirar desde o domingo em que não batemos de carro. Te olho com olho de bicho assustado porque espero o tiro, o passo, a deixa. É agora ou espera mais um pouco?
É o mar se recolhendo devagar da areia. Vai o peito esvaziando a falta de ar e é tanto amanhã que já me começa a faltar. Toda aquela coleção de lembranças do futuro que você desenhou na minha frente. Aquelas coisas que eu nunca quis e que tanto já me fazem falta.
Recuo porque não sei o tamanho da onda.
22.4.15
você.
tem as certezas pra todas as minhas dúvidas
e a calma que tempera a minha intensidade
tem dois braços que desmontam minha fuga
e esse tal um abraço em que quero morar
tem muita preguiça, quer dizer, pouco tempo
e beijo infinito pra curar qualquer interrogação
tem um pé que encontra o meu no meio do son(h)o
e uma voz que canta baixinho o que quer me dizer
tem essa mão que eu encomendei faz tempo
e um sorriso esmagado no travesseiro
tem trilha sonora pra todo jantar
e paciência com os meus hiatos
você chegou sem alarde, sem avisar
e tem cheiro de uma felicidade que nem sei o nome ainda.
e a calma que tempera a minha intensidade
tem dois braços que desmontam minha fuga
e esse tal um abraço em que quero morar
tem muita preguiça, quer dizer, pouco tempo
e beijo infinito pra curar qualquer interrogação
tem um pé que encontra o meu no meio do son(h)o
e uma voz que canta baixinho o que quer me dizer
tem essa mão que eu encomendei faz tempo
e um sorriso esmagado no travesseiro
tem trilha sonora pra todo jantar
e paciência com os meus hiatos
você chegou sem alarde, sem avisar
e tem cheiro de uma felicidade que nem sei o nome ainda.
sobre o que se acha em horinhas de descuido
3.2.15
o meu retrato.
"essa foto não é sua", disse três vezes. e quem lhe conferiu tal autoridade? pergunto quem lhe conferiu esse peso de cada palavra que me destrói pedaço a pedaço, pro bem ou pro mal. quem lhe permitiu esse poder sobre meu corpo, esse peso nos meus ombros? qual poder supremo olhou no teu olho de cílios limpos e disse: 'olhe, vá ressignificar músicas que ela gosta'? quem lhe instigou o vinho, quem lhe fez se derramar sobre meus poros. quem quer que tenha sadicamente lhe colocado de contratempo nesse meu caminho manso merece um castigo que não sei qual é. talvez um você, desse jeito dolorido, enlouquecedor e apavorante. mas pra ele. ou ela.
ou ela. ela é outra peça de tudo o que hoje me enfraquece e eu nem sabia que existia. uma poça de lama reluzente que te hipnotiza cada vez que você chega perto. foram duas vezes que eu vi o encanto acontecer. meus dois anoiteceres diurnos. no que achei que era meu, foi lá e fez igual. ou melhor, ou pior. não sei, não entendo do assunto de vocês. sei que você quando elogiou meu colar, tinha lembrado de outro e tudo isso tira o valor de um segundo por segundo. acho que vou desachando tudo que achei em ladrilhos na frente da igrejinha quando falamos de eternidades absurdas.
o que fui lá, não sou aqui. quando fui outra, voltei na estrada sonhando contornos de romance adolescente. macabéa que sai da cartomante. a vida-hoje desenhada esvaindo em cada linha trocada, em cada lembrança de presença acompanhada. essa é a vez da palavra difícil. felicidade antes do atropelamento. vou gastar meus segundos devagar. aqui jaz minha efeméride.
[2015] a efemeridade do amor líquido.
4.1.15
a noite do ano.
faz cinco anos que isso começou a acontecer sem a gente se dar conta. uns encontros em corredores e salas mudas que ninguém poderia reparar. você não sabe, mas eu ainda lembro de um dia que você me olhou e me olhou de novo. e a vida foi correndo pelos dias e cidades enquanto fomos dois em direções opostas. mas volta e meia tinha um assunto seu. e acho que devia ter o meu também. e assim fomos nos desconhecendo à distância.
eu fiquei por aqui em um grande amor impossível, que é tudo que eu gosto de fazer nessa vida. fui contando dias felizes e esquecendo os que não foram até não conseguir mais varrer as horas cinza pra debaixo do tapete. abri a porta e me assustei um pouco com tanto amor líquido do lado de fora. apaguei um tanto de mim e comecei a redesenhar meus contornos. te contei daquele cara que colocou meus pés no chão? ele chegou aqui antes e depois de você e me tirou o sono e a singularidade. estava andando por aqui tentando entender como me encaixar no ordinário em que me colocaram. contando meus grãozinhos de areia.
no intervalo entre nós, eu fui plural e você sem par. acho que você dormia, acordava, dirigia e dormia - mas não sei bem essa ordem. a saudade habitava as frestas de tempo que sobravam e também sua vontade de ser pai. você queria se plantar em alguém pra não se perder de si mesmo. eu também tento não me perder olhando bem fundo nos olhos dos outros.
num dia vermelho, você estava ali onde já fui, mas tão diferente do que fui por lá. depois me chamou pra perto da janela de onde me arremessou pro ano-que-vem. e agora, feliz 2015.
eu fiquei por aqui em um grande amor impossível, que é tudo que eu gosto de fazer nessa vida. fui contando dias felizes e esquecendo os que não foram até não conseguir mais varrer as horas cinza pra debaixo do tapete. abri a porta e me assustei um pouco com tanto amor líquido do lado de fora. apaguei um tanto de mim e comecei a redesenhar meus contornos. te contei daquele cara que colocou meus pés no chão? ele chegou aqui antes e depois de você e me tirou o sono e a singularidade. estava andando por aqui tentando entender como me encaixar no ordinário em que me colocaram. contando meus grãozinhos de areia.
no intervalo entre nós, eu fui plural e você sem par. acho que você dormia, acordava, dirigia e dormia - mas não sei bem essa ordem. a saudade habitava as frestas de tempo que sobravam e também sua vontade de ser pai. você queria se plantar em alguém pra não se perder de si mesmo. eu também tento não me perder olhando bem fundo nos olhos dos outros.
num dia vermelho, você estava ali onde já fui, mas tão diferente do que fui por lá. depois me chamou pra perto da janela de onde me arremessou pro ano-que-vem. e agora, feliz 2015.
24.9.14
umidade relativa do ar.
acredito no poder da tempestade
e tenho poucos tons de cinza
entre o branco e o preto
das entrelinhas da minha língua
gosto de confusões pontuadas
da gota estalando na poça
do quebranto da superfície
plana e chata, que passa
quero as ondas desuniformes
que se formam no centro d'água
enquanto a boca treme
mareia no instante da mágoa
espero que esbarrem na mesa
pra derrubar o copo e a taça
enquanto acordo mais cedo
só pra destruir a tua casa
vou riscar suas certezas exatas
que escrevi mesmo à lápis
não gosto de apagar, da borracha
alguns erros me fazem feliz
gosto de tudo sem quase
da levada, da letra, da dança
está debaixo da pele, é grave
espero a resposta à distância
[cheiro de grama molhada acalma o coração]
23.9.14
das variantes inevitáveis.
tenho uma série de perguntas enfileiradas pra te fazer. elas estão na minha garganta queimando a largada. é uma depois da outra e todas depois daquela segunda-feira. aliás, por que a segunda-feira? aqui está a primeira. o domingo é muito bom para fins, acredito eu. acredito principalmente na verdade e achei que isso te habitasse de alguma forma. que isso estivesse presente na mensagem sem assunto. hoje entendo por que meus pés balançavam nervosamente todos os segundos ao seu lado: eles já sabiam que não era o lugar certo. senti sempre aqui, entre o diafragma e o pulmão, que dois pés atrás eram posição inicial padrão com você. assim declarei tantas vezes - porque precisava me convencer a seu despeito. fechei as frestas da maneira que pude e segurei tudo no colo direitinho. no domingo do fim, algumas coisas me escaparam e achei que não importaria porque eu estava ali na porta indo embora. e aí a segunda-feira.
por que uma segunda-feira se não tem mais domingo?
fique sabendo que aquele domingo doeria uma dorzinha de sapato apertado. uma semana, duas? só.
e que agora foi outro tipo de ferida.
qual será essa distância entre o despertar insuportável com-barulhos-sem-mim e o silêncio?
pra ajudar seu analista: daqui não tem desculpa.
por que uma segunda-feira se não tem mais domingo?
fique sabendo que aquele domingo doeria uma dorzinha de sapato apertado. uma semana, duas? só.
e que agora foi outro tipo de ferida.
qual será essa distância entre o despertar insuportável com-barulhos-sem-mim e o silêncio?
pra ajudar seu analista: daqui não tem desculpa.
deixa pra depois
o que já não precisa mais deixar
mudando as mesmas coisas de lugar
a certa coisa certa a se fazer
e diz que só queria descansar
de quem a gente mesmo escolheu ser
sem querer, é sempre sem querer
então, taí
nosso refrão, taí
sem graça.
3.9.14
o extraordinário exato.
desde anteontem,
vou te deixar
no lugar onde encontrei
não é mérito seu, meu bem,
não se apresse em mudar
tenho meu dever, meu deus
andar até encontrar
o extraordinário
dos dias exatos
[sou das pessoas que tem
esses desígnios chatos
de acender um fogo
na covardia de cada dia
que quando vira brasa
morre, assa, passa
e o chão não contém
cada fumo fumegando
faz as horas de refém
já fui eu fugir de novo
porque prefiro viver sem].
Assinar:
Postagens (Atom)










